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Recomeço o ano de 2011 abordando um tema mais sociológico do que filosófico. Detesto ter que ficar ruminando um assunto passado, mas tenho que me expressar sobre o desastre na região serrana do Rio de Janeiro.
Outro dia, já passada toda a euforia da mídia em relação ao assunto, ouvi que já são 872 mortes confirmadas, além dos 400 e pouco desaparecidos. Mais um problema: os sobreviventes estão vivendo em situações precárias nos abrigos coletivos, quase que em cortiços improvisados com tapumes de madeira...
Ora, essa região é afetada por desastres semelhantes praticamente todo ano. Mas o fato é tratado como novo a cada ano que passa. Como eu sei disso? Por dois motivos: porque eu me lembro (e você também se lembra) que Angra dos Reis sofreu o mesmo problema com os deslizamentos de terra nessa mesma época do ano passado, e porque eu fiz o vestibular da Unicamp 2011.
Pelo vestibular tive contato com uma crônica de Carlos Drummond de Andrade, em que ele explicita o problema das chuvas no Rio, e denuncia a verdadeira causa do problema. Se desconsiderada a data do texto, a localidade específica da tragédia, e aceitando o absudo de que o autor ainda estaria vivo em 2011, pode-se ler a crônica como uma produção atual, realizada perante o espanto e a raiva sentida por ele nos momentos da tragédia.
É importante saber que o documento data de 1966, com os mesmos problemas que presenciamos ainda hoje. Sem mais delongas, dou voz ao poeta:
Este, o Rio que tenho diante dos olhos, e, se não saio à rua, nem por isso a imagem é menos ostensiva, pois a televisão traz para dentro de casa a variada pungência de seus horrores.
Sim, é admirável o esforço de todo mundo para enfrentar a calamidade e socorrer as vítimas, esforço que chega a ser perturbador pelo excesso de devotamento desprovido de técnica. Mas se não fosse essa mobilização espontânea do povo, determinada pelo sentimento humano, à revelia do governo incitando-o à ação, que seria desta cidade, tão rica de galas e bens supérfluos, e tão miserável em sua infraestrutura de submoradia, de subalimentação e de condições primitivas de trabalho? Mobilização que de certo modo supre o eterno despreparo, a clássica desarrumação das agências oficiais, fazendo surgir de improviso, entre a dor, o espanto e a surpresa, uma corrente de afeto solidário, participante, que procura abarcar todos os flagelados.
Chuva e remorso juntam-se nestas horas de pesadelo, a chuva matando e destruindo por um lado, e, por outro, denunciando velhos erros sociais e omissões urbanísticas; e remorso, por que escondê-lo? Pois deve existir um sentimento geral de culpa diante de cidade tão desprotegida de armadura assistencial, tão vazia de meios de defesa da existência humana, que temos o dever de implantar e entretanto não implantamos, enquanto a chuva cai e o bueiro entope e o rio enche e o barraco desaba e a morte se instala, abatendo-se de preferência sobre a mão de obra que dorme nos morros sob a ameaça contínua da natureza; a mão de obra de hoje, esses trabalhadores entregues a si mesmos, e suas crianças que nem tiveram tempo de
crescer para cumprimento de um destino anônimo.
No dia escuro, de más notícias esvoaçando, com a esperança de milhões de seres posta num raio de sol que teima em não romper, não há alegria para a crônica, nem lhe resta outro sentido senão o triste registro da fragilidade imensa da rica, poderosa e martirizada cidade do Rio de Janeiro."
Carlos Drummond de Andrade, Correio da Manhã, 14/01/1966.
Chamo a atenção para o 3° parágrafo, em que Drummond diz que a chuva denuncia "velhos erros sociais e omissões urbanísticas". A conclusão sobre quem, de fato, é culpado pelas 872 mortes ocorridas no início de 2011, eu deixo que os senhores a tirem.