domingo, maio 12

DA

As lembranças se foram. Uma velha fotografia desbotada nada mais significa do que uma velha fotografia desbotada. Foram-se as lembranças. O que ficou foi a certeza de que nada daquilo foi vivido. Certeza mais vívida do que a dúvida da própria realidade, essa, que se sobrepõe depois. Depois de muitas outras fotos que dizem, com sorrisos mais tristes do que mil lágrimas: "lembra-se?"
"Não." É a resposta que vem, quando, raramente, alguma resposta foge, com certa dificuldade. No mais fica a dúvida, o medo, a tristeza...
Dentro do teu cérebro existe um conflito louco. Momentos que dizem as fotos, terem existido, e a ausência deles, que deveriam estar lá, na chapa de uma ressonância funcional, brilhando, brilhando, brilhando. Mas a luz se apagou, e não há mais nada lá, só escuridão.
No meio de pessoas estranhas, perambulando dentro de casa, não acha o casamento, o nascimento do filho. Não acha a esposa e as crianças. São apenas fantasmas que arrastam correntes dentro da sala, da cozinha, dos cômodos e você se pergunta: "O que fazem aqui?" e em resposta, eles choram.
Aqueles meninos que correm ao teu redor são seus netos. E aquele casal que bate a tua porta são os únicos amigos que reconhece. O Catatonismo e a Morte.


É um pesar escrever sobre a fragmentação da vida antes mesmo da chegada da morte.