quarta-feira, dezembro 8

Eros


Milo Manara. Desenhista de quadrinhos eróticos, ao receber a afirmação de um entrevistador que considerava suas mulheres mais sensuais do que uma mulher real nua, disse: "Acredito que o órgão sexual mais importante é o cérebro, e o desenho viaja sempre no mundo da fantasia. Não se trata de pessoas reais mas de sonhos fantásticos." A princípio essa afirmação não me agradou, pois sempre considerei que, quando se trata de sexo, o cérebro nada tem a ver com o corpo. Já explico: os sentimentos eróticos são um reflexo do instinto de procriação, isso significa que a razão fica de fora das nossas "brincadeiras sexuais".
Era o que eu achava, até penetrar um pouco mais na questão. (Com o perdão do trocadilho :D)
Percebi que, de certa maneira, estava errado -de certa maneira pois o instindo de procriação é um fato- uma vez que não é somente o instinto que nos faz ser o que somos.
Há algo mais. E esse "algo mais" é justamente a nossa impressão sobre a realidade que nos cerca. Oras, não seria TUDO uma impressão abstraida da realidade, por nós mesmos? Música, pintura, desenho... Isso somente no campo das artes. Mais: Amizades, amores, conhecimento,o próprio sexo, etc. A realidade é quase que consumida e digerida pelo ser humano, ou seja, ele a capta, aproveita o que lhe convém (que transformamos em sentimentos positivos ou negativos) e joga fora o que não foi apreendido.
Nesse sentido Milo estava certo, ele consegue, com a habilidade de um artista, fazer-nos ter a impressão de que aquilo que de fato não existe, é mais belo do que o concreto, uma vez que, para nós, o desenho, ou a música, ou a amada, é real em nossa própria "fantasia", em nossa própria impressão de mundo.


Questionem-se.

4 comentários:

  1. Peço desculpas pelo tamanho da fonte do texto, pelo visto o tamanho "normal" não funciona.

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  2. Boa iniciativa a do blog. Afinal não são poucas as pessoas que se pegam em perguntas do tipo e simplesmente abstraem o sentido que elas trazem, ou trariam quando analisadas, e consideram apenas a superficialidade das relações a que estamos expostos. Inclusive relações de sexo, não só o ato em si, mas tudo que envolve. Não sei até que ponto o instinto sobrepõe o cerébro, e vice-versa (embora em um mundo de inflexões superficiais o "versa" fique bem distante), mas de fato há no cerébro e na construção do ideal, daquele que vem de Platão e não de Pessoa, muito da interação entre sexos. O sexo é fantasia, a fantasia é sonho e o sonho somos nós, com a percepção de mundo, que construímos. Construímos através do que? Do cérebro!

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  3. Se o combustível do erotismo não fosse fantasia mas instinto de procriação a masturbação não teria sentido :P

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  4. De fato, muito bem lembrado, Bia.
    O próprio Milo disse que seus desenhos possuem um valor diferente, agora que a televisão e a internet propagam um erotismo "real". Situação muito ímpar do que ocorria na década de 60, quando o sexo, e a masturbação, ainda eram taboos gigantescos, apesar da crescente liberação sexual. (Década em que ele começou seus quadrinhos).

    Danilo: Voltando à antiguidade percebemos que tudo o que refletimos são repetições das indagações dos filósofos antigos. Se aprofundarmos bem um tema, com certeza lembraremos de Sócrates, Platão ou Aristóteles. Isso citando os mais famosos...

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