"Estou hoje perplexo, como quem pensou e achou e esqueceu. Estou hoje dividido entre a lealdade que devo à Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora, e à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro." Fernando Pessoa (A.C)
quinta-feira, fevereiro 7
Dois em Um - A Mitologia guiando o profissional médico
Quem sai do Instituto Central do Hospital das Clínicas de São Paulo, pela porta
principal, depara-se com uma escultura um tanto singular para os nossos dias. Não se
trata de uma cruz, uma estrela de Davi, ou uma lua crescente e estrela. O que
encontramos, na verdade, é um homem clamando aos céus, segurando um bastão
envolto por uma serpente. Trata-se de uma figura mitológica, Asclépio, o deus – ou
semideus – da Medicina. Seu poder representativo é importante para entender as
características mais essenciais, que transcendem o tempo, da medicina como
profissão. Daí, não é por acaso que o encontramos na frente do hospital.
Asclépio nasceu de uma relação entre o deus Apolo; filho de Zeus, representante do
sol, da luz, da música e das artes; com uma mortal. Porém, teve como “mãe” de
criação o Centauro Quíron, criatura ferida, que em decorrência disso adquiriu vasto
conhecimento médico. O “deus” da medicina foi morto por Zeus – deus de todos os
deuses - devido ao pecado de por-se lado a lado com as divindades ao ressuscitar os
mortos usando a prática médica ensinada por Quiron.
Tendo em vista a representatividade do mito, não somente a história em si, é possível
compreender a profissão médica como uma união entre a técnica e o manejo, entre o
competente e o compreensivo, tal qual a união que deu origem ao semideus curador:
Apolo como pai, representando a parte técnica, iluminada, da medicina, e Quiron
como “mãe”, representando a compreensão da efemeridade, o manejo com o doente.
E é nesse aspécto que se encontra a maior dificuldade enfrentada por todos os
médicos durante o exercício profissional: alcançar o equilíbrio entre o conhecimento
teórico-prático e o bom relacionamento com o paciente doente (ou relação médico-
paciente), em outras palavras, saber encontrar a aurea mediocritas entre o médico
Apolo e o médico Quiron.
Como devem proceder, os médicos, por exemplo, no caso de um paciente que faz uso
de um método alternativo de analgesia, sem qualquer referência científica que prove
este efeito, referindo inclusive que tal método, e não o remédio, é o responsável por
sua completa cura? Dado que a doença desse paciente em questão não ultrapassa a
fronteira da dor, isto é, não há qualquer comprometimento sistêmico se não a própria
dor. Seria imprudência médica suspender a medicação até então dada, acreditando,
como o paciente, na medida alternativa? Seria prepotência impor um tratamento sob o
argumento de que há uma sistematização científica que comprove a eficáca da droga
em questão? Remetendo novamente ao mito de Asclépio, torna-se fácil, pelo menos
teoricamente, alcançar a resposta para essa situação. Há que se encontrar os dois
lados da mesma faceta profissional. Ser Apolo e Quiron ao mesmo tempo. Ser o
médico cientista, técnico, clínico e, simultaneamente, ser o médico humanitário,
compreensivo, sensível. Aí está, afinal, o motivo pelo qual encontra-se Asclépios
recebendo os transeuntes do Hospital das Clinicas: lembrar os médicos a serem dois
em um.
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